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Mostrando postagens de 2005

Amor

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O que dizer da amizade? Se é ela e somente ela que nos traz a luz outrora perdida em cotidianos insípidos e representações superficiais. Hoje vejo que não há nada melhor do que falar com alguém que entende o meu discurso, que nutre-me com seus frutos tirados tão bondosamente das árvores já crescidas. Esses frutos nutrem-me com uma imensa serenidade, e quando me absorvo neles, não existe mais nada no mundo que prenda minha atenção. Transformo-me em uma menina ansiosa por mais comida, pois é essa que tão lindamente atrai-me a mundos desconhecidos e fantásticos. Sem ao menos me dar conta, vejo que as minhas ambições e orgulho não significam muito quando as comparo com o amor que devoto a amizade. A ausência de ouvidos atentos a minha voz acabam por sucumbir-me no silêncio. A solidão quando impregnada na alma traz angústias inomináveis e se não pudesse ser salva a tempo, poderia morrer nessas águas profundas. Mas antes mesmo de pedir socorro, alguém veio ao meu encontro, pulou no rio e me ...

Sentimentos Fugazes

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Musicalidade viva, sensibilidades formosas, pensamentos infindos. O teu ser me invade como o cheiro de terras distantes esplêndidas. Mares imensos, suas ondas a derramarem-se na praia. Areia, seus grãos tão minúsculos, incontáveis. Estou a nadar nessas águas geladas que levam meu corpo, deslizo no líquido brilhante. Reavivo-me ao mergulhar no que não conheço. Desconheço o oceano no entanto sou ele, sou totalmente ele, sou incomparavelmente maior que todos os oceanos existentes, eu o conheço, ele está na palma de minha mão e eu o sinto enquanto ele dorme um sono agitado. Eu posso compreendê-lo embora ele não saiba de minha existência. Me esqueço da profundidade que pode me engolir, pode levar-me à densidades e afundar-me fazendo desaparecer a minha suposta superioridade. Os mares, oceanos, líquidos que tomam a forma que quero, coloco as águas em meus recipientes pré fabricados e eles moldam-se ao meu silêncio. Antes os seus gritos eram ouvidos, hoje, tudo que são está nas formas que os ...

Indagações

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IndAgAçÕeS não querem sair respeitosamente de meus pensamentos que são incontáveis. Elas são minhas perguntas que gentilmente arrombam a porta de minha mente, roubam minhas preciosas certezas e me deixam sem nada que sirva como substituto para tamanha perda psicológica. Essas ladras de verdades bem arrumadas na casa da razão, fogem dos guardas que adormeceram por um segundo. Esses, ao acordarem, não se lembram nem ao menos do dia anterior, diga-se do segundo antes do acontecido. Eles agora exercitam seus músculos à procura das respostas perdidas por cidades imensas e impossíveis. No entanto, as ladras transformaram as verdades absolutas em relativismos, mudaram seus cabelos bem arrumados por um de cor indefinível. Suas roupas confortáveis mudaram seus formatos tradicionais e foram reformuladas afim de mostrar as partes do corpo antes ignoradas, agora sendo a visão tão ampla o que antes era escondido se revela. No entanto, os guardas não reconhecem a fantasia, mostram-se confusos em rel...

Billy Elliot

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Garoto de 11 anos mora em uma pequena cidade na Inglaterra. Billy rodeado pelas aflições de seus familiares tem que enfrentar suas aulas de boxe que odeia. No entanto, felizmente ele tem a sua salvação nas aulas de balé que troca para sentir-se de alguma forma mais adequado em termos de seu corpo inadequado para o boxe. Sua professora é uma mulher que fuma compulsivamente e dá aulas de balé para meninas que demoram a acertar os passos. Ela vê um grande talento em Billy e começa a treiná-lo. Seu pai vai contra o seu sonho e diz que o balé é para meninas e não para meninos. Meninas talvez sejam mais delicadas em seus gestos, mas definitivamente Billy contraria as regras da tradição e dança gostosamente. A dança seria um "desaparecimento de si", uma ausência de seus problemas conflituosos, de sua busca de si, de sua angústia, seua solidão, sua fragilidade. Parece ter fogo queimando, eletricidade nos pés, paixão. Dançar é uma forma de esvaziamento, de perder-se, entregar-se, sone...

Energia Pura

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Gostaria de falar sobre esse filme que me toca de maneira diferente cada vez que é visto. Filmes são úteis não apenas para esquecermos por algumas horas a realidade em que existimos, mas também para a reflexão de atos similares aos nossos, nos vermos, por vezes, na tela que parece retratar muito bem nossos estados de seres humanos sempre em busca de soluções para nossos conflitos. O filme "Energia Pura" mostra um garoto muito especial vivendo escondido no porão da casa de seus avós. O que fez para viver marginalizado? Absolutamente nada. Na verdade, ele nasceu com uma aparência bizarra para os padrões saudáveis. Ele não tinha pêlo nenhum no corpo e sua pele não tinha coloração, deixando-o branco e pálido, além de seus olhos acizentados. Quando no ventre da mãe foi atingido por um raio que o eletrizou e o parto foi difícil para sua mãe levando-a ao óbito. Seu pai, a partir de então o rejeitou como filho. Mas o que tinha ele de tão especial? Ele tinha uma memória inacreditável,...

Teus olhos

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Acordei em me vi com teus olhos. Tomando os olhos do outro passo a ver-me com uma forma diferente da minha. Mostro-me preocupada com o que vejo e fecho subitamente os olhos. Não quero enxergar o que vejo e não quero ver o que nunca pensei sobre mim. Dá-me olhos que não mintam sobre a minha imagem. Mostra-me o que sou o que posso construir com a minha essência. Sopra o teu fôlego sobre a minha boca e assim viverei a tua vida em mim. Quero ver-me imponente por sobre as opiniões que não aceito. Quero ver-me como uma lua iluminando a noite escura e fria. Sonho ser tua e que o que és seja também o que sou. Essa união perfeita mostrasse-á forte e assim violará todas as inverdades que não mais serão ditas.

A verdade

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Viagens nem sempre são dádivas. Os acontecimentos por eles mesmos não trazem consolo. Concluí que a única resposta à crises indefinidas é a prática da verdade. Não aquela imbuída de insultos e desaforos, mas aquela que deve ser dita com cuidado e singeleza. A verdade pode curar como também pode trazer malefícios que gradualmente vão se tornando bons. A verdade é a virtude do não fingimento, da não falsidade, é o apego a valores maiores do que os que estão aí prontos para serem comprados a preço barato, e dispensados rapidamente quando a verdade os mostra inúteis. Os valores como a etiqueta e os bons modos podem valer para regular comportamentos que não trariam uma humanização da sociedade, mas, a verdade é o valor que reduz os homens e sua cultura em algo tão pequeno que acaba por levar a pensamentos bem mais complexos. A verdade reduz os homens. E é por isso que ela é tão rejeitada. A verdade não ornamenta o mundo, não o sensibiliza, não o mostra tão belo como em festas enf...

Peixes

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Clarice com sua introspecção aguda ultrapassa as fronteiras do querer e chega a suportar sérias contradições que insiste abrigar. Clarice é uma mulher vaidosa, formosa e suculenta. Ela pensa que por ser um ser inspirado pode chegar ao sobrenatural sem muito esforço. Clarice é um ser essencialmente escrito em linhas tortas tentando endireitá-las para que um dia possa andar em linha reta ao invés de labirintos sombrios. Andar diretamente rumo a um abrigo é o que faz Clarice sobreviver, ela anda pela tempestade chorando de paixão, e encontra passarinhos, diversos seres alados a sobrevoar o céu. Ela pensa que as asas são extensões que ela mesma gostaria de possuir pois as asas são instrumentos para um vôo prolongado. Os pássaros ficam cruzando o céu, fazendo piruetas perigosas, sem medo algum do ar, o ar os sustenta com tamanha precisão que não importa, há um equilíbrio entre a asa e o ar, entre um pássaro e outro, como uma grande sinfonia que não pára nunca de fluir música. Clarice pensa ...

Sincronicidade

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Continuando a falar sobre eventos sincrônicos. O povo judeu tem estado em meus pensamentos ultimamente, mas como eu comecei a pensar no judaísmo? Bem, sou de família cristã, e as histórias bíblicas sempre estiveram na pauta de meus estudos na igreja e em casa. Ouvi diversas histórias: a criação do mundo, Adão e Eva, Abraão, Moisés, Jonas, o dilúvio, só para citar algumas. O povo judeu segue a Torá que seria o velho testamento. Ou seja, há uma familiarização desde que me entendo por gente. Sempre histórias de superação e esperança. Então, já adulta, na faculdade de psicologia, estudando na mesma sala que um jornalista fotográfico ele me pergunta: Você é judia? Eu, estranhando a pergunta, digo que não. Penso: “Porque será que ele achou que eu era judia?” Pergunto a algumas pessoas a esse respeito e todos dizem que meu rosto tem algo de judeu. Outro evento seguinte: Eu,, sentada na faculdade, rindo e conversando com uma amiga e aparece um homem carioca andando, ele pára subitamente e vem ...

Gustav Klimt

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Esse pintor é um dos que mais me fascinam. Vi um de seus quadros e logo me apaixonei pelo artista. Tratava-se nada mais nada menos que: “ O beijo”. Tão delicado, tão soberbo simultaneamente. Gustav Klimt pintava figuras femininas de forma a exaltá-las. Usava um símbolo que mais parece uma língua de mariposa, isso mesmo, uma língua enrolada de mariposa que se desenrola na tentativa de se alimentar do mel das flores. Digo isso pois assisti a um filme em que o professor ensinava justamente isso ao aluno. Engraçado que eventos como esse são chamados “sincrônicos”, trata-se de uma sincronicidade, nunca ouviu falar? Bem, eventos assim são aqueles que sucessivamente vão se colocando na nossa vida de forma a um ter tudo a ver com o anterior e assim por diante. Por exemplo: Estava a pensar sobre o corpo feminino, como ele sempre foi motivo de contemplação, embora hoje haja uma banalização da mulher. Então tentava desesperadamente mudar meu ponto de vista em relação a esse evento. Então, assisto...

A história que quero contar

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A história que quero contar é um entrelaçamento, são histórias que se relacionam com as outras de maneira a uma se sobrepor a outra sem prévio aviso. È a história de uma mulher, uma pessoa que encontrou-se na literatura e começou a viver dela. As letras já não eram impressões fortuitas, não eram esquecimentos imediatos do que se acabou de ler cujo significado foge quando não se vê utilidade para ele. Não. As letras pularam dos livros e com elas o significado enobreceu-se, somado à realidade sufocante, os livros mostraram-se mestres da imaginação, da ilusão. O confortável assento em um sofá foi dono do sonho. Esse livro já o quero a tempos, já o desejo a todo o momento, é só abrir os olhos e os pensamentos saltam grotescamente querendo as páginas de algum caderno faminto pelas frases ainda não escritas. Nesse livro mesclam-se com pouca nitidez a ficção e a realidade, o conto e a crônica, a prosa poética, os não lugares comuns de uma época sombria. Bem, não é nada fácil escrever quando a...

Estrelas de papel

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Cordialmente invade o dia, subitamente caminha a aurora. Mínimos sonhos formam-se outra vez. A estrada pedregosa, de inúmeras pedras definidas em pedaços jogados aleatoriamente, a carcaça, a poeira. Dias concatenados de abismos, indefiníveis ventos fazem girar as folhas caídas das árvores gigantescas. O país é outro, o universo é diverso daquele primeiro suspiro. A respiração que deu origem à vida no cosmos. As pessoas como cordões oscilando tempestuosamente. Giram piões, rodando sobre si mesmos, enquanto crianças sorriem de “tamanho invento”. Brincadeiras sustentam afazeres, miúdas fortalezas fixam os pés no chão frio. Olhar o céu, esperança indefinida, inefável. Bondade da chuva caindo, de olhos fechados, pingos lentamente trazem o sentir afável nos olhos, na testa, no caos selvagem do corpo. E ela o espera como aguarda o nascer do sol. Ela prefere o nascer do que o pôr do imenso astro. Esse acabar-se o dia é o fim de uma jornada enorme, surda, fascinante. Quando avisto estrelas de p...

Besame mucho

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Beije-me, beije-me como se fosse a última vez. Beije-me enquanto fios de ouro enrodilham-se por sobre um mar de rosas. Um mar de sonoros cantos, beije-me enquanto a alvorada tarda e os dias mornos como pequenas esferas sonolentas dormem com cantigas de ninar. Abraça-me com força, enquanto a noite enorme engole o dia. Enquanto o verde ainda não cansou-se de sua cor, enquanto os raios ainda presos nas nuvens não soltam-se repentinos, enquanto os trovões não trazem a chuva. Enquanto ainda existo. 17:46

Dê cordas à sua imaginação

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Escrever sobre o processo de escrita é o que me toma no momento de um pessimismo persistente em que a imaginação ainda não evoluiu a ponto de falar sobre outros contextos. O processo não é nada fácil como o resultado final parece mostrar. É como ver um quadro já pronto, contemplar a sua já concluída formulação não é escolher as tintas, não é passar o pincel delicadamente por sobre a tela, não é ser tomado por algo desconhecido, não é esperar que a tinta fresca seque, é apenas um olhar. Claro, que o olhar de quem contempla, o segundo olhar, é muito importante. Mas não compara-se ao criar. Criar é o movimento, é o sopro de vida, é caos selvagem imprimido no corpo que encontra a arte de se mostrar por meio da pintura, por meio de uma replicação não muito lúcida do real, por meio de um vislumbre de um sonho nas tramas do inconsciente. A mudez diante da tragédia é uma vergonha. Fechar os olhos e não querer enxergar parece ser ainda mais trágico e ilusório. Acho que falar, ouvir e ver no mun...

Febre

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Alguns escritores dizem que a inspiração é diretamente ligada ao estado corporal. Hilda Hilst,por exemplo era levada por uma febre quando escrevia. Parece que todos os escritores, mesmo que pareça uma generalização arbitrária, têm fortes argumentos sobre o seu processo criativo, parece que todos estão em um período em que não apresentam tal febre, parecem isentos de fulgor, parece que a descoloração invadiu suas mentes antes iluminadas por diversas colorações. Esse período angustiante me atacou sem prévio aviso. Na vida, há imprevistos, não é verdade? Ou o imprevisto é a regra? Bem, em todos os momentos em que escrevi, e que gostei do resultado, foram momentos em que meu corpo inclinava-se a esse ato, quase como um formigamento nas pontas dos dedos pedindo o toque nas teclas, nas letras e que aquele instrumento posto na minha frente, aquelas páginas em branco na tela do computador, fossem preenchidos com os mais ocultos mistérios e elocubrações imaginárias possíveis. Me deixava levar p...

Passeios Imaginários

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Encontrei um escritor Nova Iorquino chamado Paul Auster. Alguns dos livros escritos por ele: Palácio da Lua, Leviatã, A arte da fome. Esse último descreve entrevistas e críticas feitas por esse admirável escritor. Pela entrevista dá para notar seu processo criativo, e o que percebo na imensa variedade dos escritores que conheço no decorrer do tempo, é que seus livros seguem determinada tendência, gênero, forma que ligam-se irremediavelmente às suas biografias e modos de pensar. Na entrevista Paul diz que é criticado por alguns por dizer que o que escreve não é literatura realista, o que pretende ser. Paul diz que tais críticos não devem viver então no mundo real já que esse mesmo lugar está cheio de surpresas cotidianas descritas nos seus livros, que tendem a ser uma mistura de realidade e ficção, sem ter uma linha como divisão desses dois lugares- comuns. O que me lembra um filme “walking life”, que trata sobre os sonhos e como é tênue a linha divisória entre o que é verdadeiro e o qu...

Praga

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Havia assistido um documentário sobre uma atriz famosa. Esse documentário me levou ao filme de François Ozon: oito mulheres. Adorei. Um filme com interpretações fortes feito por mulheres francesas. Como gosto disso! Certamente nasci no lugar errado, tenho alma francesa, tudo que seja europeu toca-me de forma inusitada. Ontem assisti um documentário sobre Praga, uma pequenina cidade Tchecoslováquia. Lá seus habitantes falavam poeticamente sobre o seu amor pelo lar onde haviam nascido. Falavam de sentimentos profundos, sobre como sentiam-se os habitantes dali. Uma mulher e seu relato chamou-me a atenção: ela disse que os que moram ali conhecem-se desde criança, cresceram juntos, os sentimentos que decorrem disso ainda não sei definir, pois não é a minha realidade, no entanto, ela disse algo: as pessoas que moram aqui vão de um humor ao outro muito rapidamente, algo que não acontece com outras pessoas, podemos estar tristes e num momento rir, ou estar rindo e bruscamente chorarmos. As pes...

Cuba

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Ontem me falaram de Cuba, fiquei pensando a respeito desse país distante. Hoje ao chegar na faculdade li a respeito em uma entrevista de um escritor e poeta exilado em Madri sob a ameaça de uma nova prisão em seu país de origem. Pensei que é preciso muita coragem para deixar o Brasil e se aventurar por novas terras. Os cubanos são um povo sofrido por anos de comunismo liderado por Fidel Castro. A entrevista dispõe sobre Cuba, o escritor afirma o que todo mundo diz, que Cuba é um país em que a educação é levada a sério, e que os índices de anafalbetismo são reduzidos. No entanto, toda a educação é voltada para o regime comunista, afim de legitimá-lo e vangloriá-lo. Leituras são proíbidas, e não deve haver contestações a respeito do regime. Contudo, o escritor diz que a democracia pode sim vir a ser instalada, mas apenas após a morte de Fidel, pois os jovens são entusiastas da democracia. O comunismo faz muito mal ao povo, já que muitos tentam a todo custo colocando suas vidas em risco a...

Hell (minha crítica a esse livro francês sobre jovens ricos contemporâneos)

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Um livro autobiográfico de uma garota francesa, por sinal, milionária. Reflete valores da sociedade pós-moderna. Uma vacuidade gritante, um vazio que não se preenche com a materialidade e o consumismo. A vida subjetiva da personagem é o seu principal foco no livro. O livro é essencialmente a história de jovens infelizes em um mundo incapaz de consolá-los. Jovens ricos, famosos, endinheirados, nada lhes falta, quer dizer, o que lhes falta é um ideal, tudo, todos os desejos foram realizados, para que viver? A vida é uma luta constante por sobrevivência para milhões de pessoas, mas para esse particular universo em Paris, a vida é uma sucessão de artificialidades que não levam a lugar nenhum, só a imensa vontade de não pensar em nada. A excitabilidade constante é a meta desses jovens que fazem de tudo para viver freneticamente nas aparências de suas marcas, algo comentado repetidamente por Lolita. No entanto, apesar de Lolita fazer parte desse sofisticado mundo, ela gera uma reflexão sofrí...

O conto do Camaleão

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Havia um certo lugar bem longe de tudo que se conhece, de tudo que alguém pudesse um dia imaginar. Dentro dele estava a mais bela floresta que poderia um dia existir. As árvores eram gigantes, as flores luminosas, as folhas espalhavam-se pelo chão. Ali poderia haver um cenário fantástico para que uma história pudesse ser concebida. Uma história de amor, de aventura, de desejo. Dizia-se que os deuses habitavam ali, também haviam seres extraordinários que brincavam por entre a vegetação. Seres alados, pareciam borboletas, pássaros com aparência humana. Uma característica comum a esses seres eram suas cores. Todas sem exceção coloriam-se com variações surpreendentes, amarelo, vermelho, azul. Tudo combinava com o céu cheio de nuvens formando figuras divinas. O sol interpunha-se por entre elas e as faixas de luz eram mais um elemento da paisagem. Um ser chamado Borboleta-moleca dançava ao som da alvorada, dos cantos vindos de algum lugar daquela terra, um som melodioso, que exaltava o espír...

Coreografia de sons

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A dança tem espaço privilegiado no que chamo de “meu gosto pelas artes”. Nesse espetáculo em particular, coreografia de sons, o grupo Quasar surpreende o público dançando ao som de músicas regionais nordestinas, além de “incorporar” falas de personagens que fazem parte dessa cultura riquíssima. Os dançarinos como que sugam do ar os sons que entram em seus corpos dando-lhes vida. O intuito é de mostrar a música em imagens. Dançar é uma forma de esvaziamento, de perder-se, entregar-se, sonegar-se, uma encarnação da música que do ar transforma-se em movimento visível, é não somente uma experiência sonora, é muito mais que isso, pode-se dizer que é enriquecimento da visão, de todos os outros sentidos. A arte salva, é como ser levado vagarosamente à essência, ao belo, ao novo. A dança contemporânea apresenta ao público o ser humano em busca da perfeição, da sincronicidade, de significados. Essa arte é uma mostra de criatividade, experiência e sobretudo vontade de gerar reflexões sobre o esp...

Antes do pôr do sol

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Um filme que gostaria de assistir: Antes do por do sol. Trata-se de uma continuação do filme “ antes do amanhecer”, esse é relativamente antigo pois feito em 1995. Um filme que trata as relações amorosas de forma racional, sem exacerbação. O casal que não se vê durante anos acaba por se encontrar em um momento existencial distinto daquele em que se encontraram pela primeira vez. Os dois ainda jovens conheceram-se em um trem e passaram um dia inteiro juntos, ao final, marcaram para se encontrarem após seis meses o que acaba não acontecendo. Os dois encontram-se após alguns anos. O que chama a atenção para o filme são os diálogos que foram muito bem delineados. Naquele momento as ilusões juvenis já não tem espaço, e a relação certamente terá delineamentos mais complexos. O interessante do filme é que ele é feito por um diretor de cinema alternativo. Os diálogos são longos e não há tantos cortes. È um filme que tem uma perspectiva realística do romance, com todos os seus entraves que o te...

Fale com Ela

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Excelente filme que trata da suavidade e mistério na vida das mulheres. Essas que aparecem mudas no filme, são as protagonistas de uma história recheada de bondades inominadas. Dois homens que tentando a comunicação amam suas mulheres cada um da forma como conseguem. O enfermeiro que durante quatro anos se desfaz em carinhos e cuidados por sua amada em coma. Ela ali, imóvel, como um bebê, como uma boneca sem vida, ele ali, a amando sem sacrifício, lava seus cabelos, faz massagem em suas pernas, faz tudo para que ela continue com sua dignidade de ser humano. Ele conversa com ela como se ela estivesse totalmente atenta à sua fala. A música é algo especial no filme, algo que traz uma atmosfera de emotividade profunda. As conotações e metáforas mostram um mundo oculto feminino, o que as mulheres querem? Querem ser amadas, ouvidas, sentirem-se úteis. Elas querem esse amor incondicional, esse amor dado de uma forma prazerosa, uma forma muito além do ordinário. As mulheres existem para serem ...

Encantadora de Baleias

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Assisti a um filme lindo “Encantadora de baleias”, é um filme da Nova Zelândia sobre a cultura Maori. Uma menina tenta convencer seu avô de que é a líder escolhida para comandar as baleias, embora seu avô carrancudo e tradicional não acredite nos dons sobrenaturais da neta. O que me chama atenção no filme é seu cenário de encantamento, o lugar é maravilhoso. Quando o avô começa a ensinar aos meninos os princípios de sua cultura milenar, parece querer reviver seu passado, acreditando em um futuro incerto. A força com que acredita em seus princípios, mostra como a tradição e a cultura podem conceder um novo significado a um povo que parece apático e e privado de um destino glorioso. Os mitos, cantos e gestuais introduzidos na trama do filme dão a sensação de que o povo é mais do que apenas alguns indivíduos juntos vivendo sem maiores pretensões, ele transforma-se em algo maior, comandado pelo invisível e extraordinário reino das baleias, figuras enormes, com seu canto que parece transcen...

O sentimento de pertencer

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O sentimento de pertencer. É algo que não se tem ao acaso. É necessário um nascimento em algum lugar especial. Praga, Sicília, Veneza. Três cidades que não conheço, então não faço parte delas. Estão distantes, o que posso é ler sobre elas e pensar um dia conhecê-las quase como uma vontade sonâmbula. Falar dessas cidades ,portanto, é uma difícil tarefa, tarefa que se prolonga quando faltam as palavras certas. O sentimento que quero definir não tem nome. È o sentido que a terra onde nascemos tem para nós. Nasci em Brasília. Mas a verdade é que não faço parte dela, não a desfruto por inteiro, não a tenho em sua totalidade, ela é imperiosa e acaba por soberbamente elevar-se acima de seus habitantes. Nenhum ser a alcança por mais que tente. Ela está inteiramente sozinha no meio do que chamaria de mar arenoso. Cidade refletindo a estética adequada: o moderno absorveu consigo a humanidade, ou o que ela teria significado um dia. Na ânsia de si manter altaneira, livrou-se de suas imperfeições e...

Fotografia

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Fotografia, essa imobilidade revestida de arte. A fotografia é basicamente memória, ela é auto-realidade. Os momentos catalogados ficam todos guardados nas prateleiras, eles serão recordados quando as lembranças voltarem junto a nostalgia de um tempo já vivido, já experimentado. Essa imobilidade dá a fotografia um sentimento dificilmente expresso. Ela é um enigma. Para ser um bom fotógrafo dizem ser importante treinar o olhar, é claro que todos podem fotografar, mas nem todos encaram isso como arte. O bom fotógrafo sabe captar o essencial nas cenas, ele quer provocar mais do que apenas a recordação, ele deseja uma reflexão. Ele fotografa com o intuito de imortalizar imagens, mas essas não devem ser superficiais, com gestos já ensaiados, como se todos fossem estátuas risonhas. Ele quer captar o momento de descontração. Além disso a natureza pode revertir-se de mil cores diferentes, todas novas. Os animais tornam-se exóticos e mostram a maravilha do mundo. O mais bonito é a fotografia et...

Inspirações Repentinas

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Estar vivendo é visivelmente sem sentido. No entanto, o sentido pode ser vencido pelas formas inusitadas que o mundo toma quando oferece bondades imprevistas. Esses paraísos terrenos são apenas momentos, vislumbres de uma eternidade que a Terra não concede aos seus habitantes. São sonhos sonhados com suor, mundos criados de memória, riso e lágrimas. Esse memorialismo circunscreve as páginas da história de dois amantes. Movidos por lembranças de dias anteriores, cada momento é novo e ao mesmo tempo uma quase repetição dos precedentes. Não há dúvida de que nada é por acaso, só quem tem alguma idade pode entender que as coisas que não tem sentido no presente, farão toda a diferença no futuro. Os sentidos ultrapassam o entendimento que se quer dos acontecimentos. Como uma teia formada atentamente por uma aranha, como sementes que crescendo tornam-se frondosas árvores em jardins particulares, como uma nova vida a formar-se no ventre de uma mulher, os sentidos formam-se sozinhos. O crescimen...

Isabelle Huppert (Sou sua fã incondicional)

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Assisti hoje um documentário sobre uma atriz francesa. Ela estava falando sobre atuar no teatro e cinema. Achei um documentário de beleza extraordinária, gosto da arte de atuar, de mostrar-se em sentimentos. Gosto da palavra “despojamento”,entregar-se completamente a uma tarefa e dificilmente sair dali ileso. Ela representava “Medéia” uma peça que exige grande força dramática. Ela encenaria sozinha, parecia um monólogo. Ela disse: Eu sou a prova de que o nada existe”. Parecem falas de Clarice, ela também dizia isso: o nada, o neutro, o disforme. A alma formando-se dolorosamente e sem saber para onde ir. Algo que virá a luz muito depois. Ela encenou filmes famosos como “ A professora de piano”, interpreta papéis difíceis, que exigem grande técnica. Ela disse: “ O ator desaparece em seus papéis, é aparecer para desaparecer”. È verdade, o ator mostra-se descaradamente nas telas, mas esconde-se simultaneamente. Quem ele é? Como é um ser sem contornos definidos, a câmara parece dar a ele a ...

Hans Christian Andersen

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Hans Christian Andersen escreveu contos de fadas, essas histórias extraordinárias que contava foram de certa forma autobiográficas, um ato de exorcismo, um auto relato de sua vida. Ele era um menino pobre, órfão, discriminado, precisando urgentemente de ajuda. Uma historia que aprecio muito é aquela da polergazinha. Porque será?Uma menina do tamanho de um polegar vive feliz da vida dentro de uma tulipa vermelha. Até que uma sapa feia seqüestra a menininha para que se casasse com seu filho, um sapo também feio. Ela consegue fugir, com a ajuda de seus amigos peixes e passa por muitas aventuras até chegar a um povoado com outras criaturinhas de seu tamanho. Quando criança eu adorava essa história. Certamente porque a polergazinha estava exilada, encontrava-se longe de seu povoado, nem sabia que fazia parte de um mundo que existia, um mundo que ela sonhara. Passa por maus bocados, aventuras, até encontrar a sua verdadeira casa. Viver em uma tulipa? Porque ela viveria ali? Era um lugar acon...

A Vila (impressões sobre esse filme maravilhoso)

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Moradores de uma misteriosa vila tentam isolar-se do mundo real a fim de manter a inocência de seus membros imaculada, além de livrar-se dos sofrimentos inevitáveis de quem vive em grandes cidades expostos a perigos constantemente, evitar a morte e as assombrações de um mundo em mudança frenética. Os habitantes da vila mantêm com grande sacrifício um modo de vida rústico, simples, desprovido de regalias. Um membro em especial é criticado por manter-se calado, quase não fala, em uma cena inusitada um morador o adverte: “Não adianta fugir dos sofrimentos, um dia eles o alcançarão”. O que ele quis dizer é que a perda da inocência é inevitável, a finitude e a morte alcançam mais cedo ou mais tarde a todos. È louvável a vontade de livrar-se do modo de vida contemporâneo e buscar conforto isolando-se. No entanto, a vila é uma mentira mantida por meio do mito criado por seus anciãos que governam a vila com mão de ferro. Mesmo sendo aconchegante viver ali, é claustrofóbico, limitado e ilusório...

Oscilações de um tempo inoportuno

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Pensando em um provável título para o meu livro inaugural (se é que ele existirá um dia, o que proponho é ir contra o natural) subitamente uma frase estranhamente familiar: “Oscilações de um tempo inoportuno”. O que essa particular intuição de algo a ser afirmado pode dizer-me no presente? Talvez o óbvio: o presente que experimento tem um sabor amargo na boca e por isso pensei no tempo: história. Essa da minha vida e dos que me rodeiam. Oscilações são desequilíbrios primários. Como a frase que li: viver é equilibrar-se no instável”. Equilibrar-se no limiar de uma catástrofe, me pergunto: será possível? O título parece ser um retrato legítimo de uma época pouco amistosa. Então é essa a decisão que tomo: escrever um livro com base em um título surgido quando estava olhando para fora da janela do ônibus voltando para casa? O que isso quer me dizer? Segundo um escritor judeu envolto a misticismos e histórias de mistério de seu povo da Polônia, Isaac Singer, em uma entrevista que vale a pen...

O feminino como inspiração

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Pensei em um presente para comprar para uma amiga. Alguém com afinidades. Pensei em diários. Vi dois na livraria que particularmente me interessaram: Diário de Sylvia Plath e Frida Kahlo. O primeiro de uma poetisa famosa e o segundo de uma artista plástica. São duas artistas que certamente viveram intensamente. São duas artistas que não tiveram medo de se expressar. Suas idiossincrasias são visivelmente profundas e relatadas com paixão. Gosto de ler sobre mulheres fortes, mas que na realidade eram a fragilidade em pessoa. São ambigüidades irreconciliáveis. São dualidades que confrontam-se. Virginia Woolf por exemplo, uma autora mundialmente conhecida, escritora de muitos livros, feminista convicta, tinha um pai autoritário e machista, viveu defendendo direitos das mulheres, e como essas deveriam construir seu próprio pensamento a respeito do mundo, como elas deveriam valorizar sua obra intelectual e buscar refúgio nela. No final suicidou-se. Clarice disse que o terrível dever é ir até ...

Sob o sol de Toscana

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Entendi. Ela não está mais aqui, quero dizer, aquela que pensava estar. O olhar esclarecido tem um sabor diferente, talvez de uma mistura estranha e sonhadora. Talvez eu me finde mais rapidamente que o imaginado, talvez quem esteja a viver seja um estrondoso e paradoxalmente silencioso ser em espera absolutamente eterna por soluções. Percebi talvez tardiamente que a construção é lenta. È extremamente demorada. Sinto falta do que perdi, embora soubesse desde o início que seria assim. Faz-me falta o que não consegui perpetuar, como se a alegria fosse uma borboleta esvoaçante, solitariamente voando por sobre o céu de luz. Escrever é procurar temáticas variáveis, distintas entre si, é a busca incessante por um aperfeiçoar-se que nunca está completo. Pensa-se ser ainda uma figura folheada a ouro, querendo reluzir um brilho que não é seu, espera-se que o brilho continue reluzente durante a procura por mais ouro, para recobri-la ainda mais com um falso sol. Enfeita-se a jóia com uma máscara e...