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Mostrando postagens de outubro 23, 2005

Hell (minha crítica a esse livro francês sobre jovens ricos contemporâneos)

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Um livro autobiográfico de uma garota francesa, por sinal, milionária. Reflete valores da sociedade pós-moderna. Uma vacuidade gritante, um vazio que não se preenche com a materialidade e o consumismo. A vida subjetiva da personagem é o seu principal foco no livro. O livro é essencialmente a história de jovens infelizes em um mundo incapaz de consolá-los. Jovens ricos, famosos, endinheirados, nada lhes falta, quer dizer, o que lhes falta é um ideal, tudo, todos os desejos foram realizados, para que viver? A vida é uma luta constante por sobrevivência para milhões de pessoas, mas para esse particular universo em Paris, a vida é uma sucessão de artificialidades que não levam a lugar nenhum, só a imensa vontade de não pensar em nada. A excitabilidade constante é a meta desses jovens que fazem de tudo para viver freneticamente nas aparências de suas marcas, algo comentado repetidamente por Lolita. No entanto, apesar de Lolita fazer parte desse sofisticado mundo, ela gera uma reflexão sofrí...

O conto do Camaleão

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Havia um certo lugar bem longe de tudo que se conhece, de tudo que alguém pudesse um dia imaginar. Dentro dele estava a mais bela floresta que poderia um dia existir. As árvores eram gigantes, as flores luminosas, as folhas espalhavam-se pelo chão. Ali poderia haver um cenário fantástico para que uma história pudesse ser concebida. Uma história de amor, de aventura, de desejo. Dizia-se que os deuses habitavam ali, também haviam seres extraordinários que brincavam por entre a vegetação. Seres alados, pareciam borboletas, pássaros com aparência humana. Uma característica comum a esses seres eram suas cores. Todas sem exceção coloriam-se com variações surpreendentes, amarelo, vermelho, azul. Tudo combinava com o céu cheio de nuvens formando figuras divinas. O sol interpunha-se por entre elas e as faixas de luz eram mais um elemento da paisagem. Um ser chamado Borboleta-moleca dançava ao som da alvorada, dos cantos vindos de algum lugar daquela terra, um som melodioso, que exaltava o espír...

Coreografia de sons

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A dança tem espaço privilegiado no que chamo de “meu gosto pelas artes”. Nesse espetáculo em particular, coreografia de sons, o grupo Quasar surpreende o público dançando ao som de músicas regionais nordestinas, além de “incorporar” falas de personagens que fazem parte dessa cultura riquíssima. Os dançarinos como que sugam do ar os sons que entram em seus corpos dando-lhes vida. O intuito é de mostrar a música em imagens. Dançar é uma forma de esvaziamento, de perder-se, entregar-se, sonegar-se, uma encarnação da música que do ar transforma-se em movimento visível, é não somente uma experiência sonora, é muito mais que isso, pode-se dizer que é enriquecimento da visão, de todos os outros sentidos. A arte salva, é como ser levado vagarosamente à essência, ao belo, ao novo. A dança contemporânea apresenta ao público o ser humano em busca da perfeição, da sincronicidade, de significados. Essa arte é uma mostra de criatividade, experiência e sobretudo vontade de gerar reflexões sobre o esp...

Antes do pôr do sol

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Um filme que gostaria de assistir: Antes do por do sol. Trata-se de uma continuação do filme “ antes do amanhecer”, esse é relativamente antigo pois feito em 1995. Um filme que trata as relações amorosas de forma racional, sem exacerbação. O casal que não se vê durante anos acaba por se encontrar em um momento existencial distinto daquele em que se encontraram pela primeira vez. Os dois ainda jovens conheceram-se em um trem e passaram um dia inteiro juntos, ao final, marcaram para se encontrarem após seis meses o que acaba não acontecendo. Os dois encontram-se após alguns anos. O que chama a atenção para o filme são os diálogos que foram muito bem delineados. Naquele momento as ilusões juvenis já não tem espaço, e a relação certamente terá delineamentos mais complexos. O interessante do filme é que ele é feito por um diretor de cinema alternativo. Os diálogos são longos e não há tantos cortes. È um filme que tem uma perspectiva realística do romance, com todos os seus entraves que o te...

Fale com Ela

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Excelente filme que trata da suavidade e mistério na vida das mulheres. Essas que aparecem mudas no filme, são as protagonistas de uma história recheada de bondades inominadas. Dois homens que tentando a comunicação amam suas mulheres cada um da forma como conseguem. O enfermeiro que durante quatro anos se desfaz em carinhos e cuidados por sua amada em coma. Ela ali, imóvel, como um bebê, como uma boneca sem vida, ele ali, a amando sem sacrifício, lava seus cabelos, faz massagem em suas pernas, faz tudo para que ela continue com sua dignidade de ser humano. Ele conversa com ela como se ela estivesse totalmente atenta à sua fala. A música é algo especial no filme, algo que traz uma atmosfera de emotividade profunda. As conotações e metáforas mostram um mundo oculto feminino, o que as mulheres querem? Querem ser amadas, ouvidas, sentirem-se úteis. Elas querem esse amor incondicional, esse amor dado de uma forma prazerosa, uma forma muito além do ordinário. As mulheres existem para serem ...

Encantadora de Baleias

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Assisti a um filme lindo “Encantadora de baleias”, é um filme da Nova Zelândia sobre a cultura Maori. Uma menina tenta convencer seu avô de que é a líder escolhida para comandar as baleias, embora seu avô carrancudo e tradicional não acredite nos dons sobrenaturais da neta. O que me chama atenção no filme é seu cenário de encantamento, o lugar é maravilhoso. Quando o avô começa a ensinar aos meninos os princípios de sua cultura milenar, parece querer reviver seu passado, acreditando em um futuro incerto. A força com que acredita em seus princípios, mostra como a tradição e a cultura podem conceder um novo significado a um povo que parece apático e e privado de um destino glorioso. Os mitos, cantos e gestuais introduzidos na trama do filme dão a sensação de que o povo é mais do que apenas alguns indivíduos juntos vivendo sem maiores pretensões, ele transforma-se em algo maior, comandado pelo invisível e extraordinário reino das baleias, figuras enormes, com seu canto que parece transcen...

O sentimento de pertencer

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O sentimento de pertencer. É algo que não se tem ao acaso. É necessário um nascimento em algum lugar especial. Praga, Sicília, Veneza. Três cidades que não conheço, então não faço parte delas. Estão distantes, o que posso é ler sobre elas e pensar um dia conhecê-las quase como uma vontade sonâmbula. Falar dessas cidades ,portanto, é uma difícil tarefa, tarefa que se prolonga quando faltam as palavras certas. O sentimento que quero definir não tem nome. È o sentido que a terra onde nascemos tem para nós. Nasci em Brasília. Mas a verdade é que não faço parte dela, não a desfruto por inteiro, não a tenho em sua totalidade, ela é imperiosa e acaba por soberbamente elevar-se acima de seus habitantes. Nenhum ser a alcança por mais que tente. Ela está inteiramente sozinha no meio do que chamaria de mar arenoso. Cidade refletindo a estética adequada: o moderno absorveu consigo a humanidade, ou o que ela teria significado um dia. Na ânsia de si manter altaneira, livrou-se de suas imperfeições e...

Fotografia

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Fotografia, essa imobilidade revestida de arte. A fotografia é basicamente memória, ela é auto-realidade. Os momentos catalogados ficam todos guardados nas prateleiras, eles serão recordados quando as lembranças voltarem junto a nostalgia de um tempo já vivido, já experimentado. Essa imobilidade dá a fotografia um sentimento dificilmente expresso. Ela é um enigma. Para ser um bom fotógrafo dizem ser importante treinar o olhar, é claro que todos podem fotografar, mas nem todos encaram isso como arte. O bom fotógrafo sabe captar o essencial nas cenas, ele quer provocar mais do que apenas a recordação, ele deseja uma reflexão. Ele fotografa com o intuito de imortalizar imagens, mas essas não devem ser superficiais, com gestos já ensaiados, como se todos fossem estátuas risonhas. Ele quer captar o momento de descontração. Além disso a natureza pode revertir-se de mil cores diferentes, todas novas. Os animais tornam-se exóticos e mostram a maravilha do mundo. O mais bonito é a fotografia et...

Inspirações Repentinas

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Estar vivendo é visivelmente sem sentido. No entanto, o sentido pode ser vencido pelas formas inusitadas que o mundo toma quando oferece bondades imprevistas. Esses paraísos terrenos são apenas momentos, vislumbres de uma eternidade que a Terra não concede aos seus habitantes. São sonhos sonhados com suor, mundos criados de memória, riso e lágrimas. Esse memorialismo circunscreve as páginas da história de dois amantes. Movidos por lembranças de dias anteriores, cada momento é novo e ao mesmo tempo uma quase repetição dos precedentes. Não há dúvida de que nada é por acaso, só quem tem alguma idade pode entender que as coisas que não tem sentido no presente, farão toda a diferença no futuro. Os sentidos ultrapassam o entendimento que se quer dos acontecimentos. Como uma teia formada atentamente por uma aranha, como sementes que crescendo tornam-se frondosas árvores em jardins particulares, como uma nova vida a formar-se no ventre de uma mulher, os sentidos formam-se sozinhos. O crescimen...

Isabelle Huppert (Sou sua fã incondicional)

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Assisti hoje um documentário sobre uma atriz francesa. Ela estava falando sobre atuar no teatro e cinema. Achei um documentário de beleza extraordinária, gosto da arte de atuar, de mostrar-se em sentimentos. Gosto da palavra “despojamento”,entregar-se completamente a uma tarefa e dificilmente sair dali ileso. Ela representava “Medéia” uma peça que exige grande força dramática. Ela encenaria sozinha, parecia um monólogo. Ela disse: Eu sou a prova de que o nada existe”. Parecem falas de Clarice, ela também dizia isso: o nada, o neutro, o disforme. A alma formando-se dolorosamente e sem saber para onde ir. Algo que virá a luz muito depois. Ela encenou filmes famosos como “ A professora de piano”, interpreta papéis difíceis, que exigem grande técnica. Ela disse: “ O ator desaparece em seus papéis, é aparecer para desaparecer”. È verdade, o ator mostra-se descaradamente nas telas, mas esconde-se simultaneamente. Quem ele é? Como é um ser sem contornos definidos, a câmara parece dar a ele a ...

Hans Christian Andersen

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Hans Christian Andersen escreveu contos de fadas, essas histórias extraordinárias que contava foram de certa forma autobiográficas, um ato de exorcismo, um auto relato de sua vida. Ele era um menino pobre, órfão, discriminado, precisando urgentemente de ajuda. Uma historia que aprecio muito é aquela da polergazinha. Porque será?Uma menina do tamanho de um polegar vive feliz da vida dentro de uma tulipa vermelha. Até que uma sapa feia seqüestra a menininha para que se casasse com seu filho, um sapo também feio. Ela consegue fugir, com a ajuda de seus amigos peixes e passa por muitas aventuras até chegar a um povoado com outras criaturinhas de seu tamanho. Quando criança eu adorava essa história. Certamente porque a polergazinha estava exilada, encontrava-se longe de seu povoado, nem sabia que fazia parte de um mundo que existia, um mundo que ela sonhara. Passa por maus bocados, aventuras, até encontrar a sua verdadeira casa. Viver em uma tulipa? Porque ela viveria ali? Era um lugar acon...

A Vila (impressões sobre esse filme maravilhoso)

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Moradores de uma misteriosa vila tentam isolar-se do mundo real a fim de manter a inocência de seus membros imaculada, além de livrar-se dos sofrimentos inevitáveis de quem vive em grandes cidades expostos a perigos constantemente, evitar a morte e as assombrações de um mundo em mudança frenética. Os habitantes da vila mantêm com grande sacrifício um modo de vida rústico, simples, desprovido de regalias. Um membro em especial é criticado por manter-se calado, quase não fala, em uma cena inusitada um morador o adverte: “Não adianta fugir dos sofrimentos, um dia eles o alcançarão”. O que ele quis dizer é que a perda da inocência é inevitável, a finitude e a morte alcançam mais cedo ou mais tarde a todos. È louvável a vontade de livrar-se do modo de vida contemporâneo e buscar conforto isolando-se. No entanto, a vila é uma mentira mantida por meio do mito criado por seus anciãos que governam a vila com mão de ferro. Mesmo sendo aconchegante viver ali, é claustrofóbico, limitado e ilusório...

Oscilações de um tempo inoportuno

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Pensando em um provável título para o meu livro inaugural (se é que ele existirá um dia, o que proponho é ir contra o natural) subitamente uma frase estranhamente familiar: “Oscilações de um tempo inoportuno”. O que essa particular intuição de algo a ser afirmado pode dizer-me no presente? Talvez o óbvio: o presente que experimento tem um sabor amargo na boca e por isso pensei no tempo: história. Essa da minha vida e dos que me rodeiam. Oscilações são desequilíbrios primários. Como a frase que li: viver é equilibrar-se no instável”. Equilibrar-se no limiar de uma catástrofe, me pergunto: será possível? O título parece ser um retrato legítimo de uma época pouco amistosa. Então é essa a decisão que tomo: escrever um livro com base em um título surgido quando estava olhando para fora da janela do ônibus voltando para casa? O que isso quer me dizer? Segundo um escritor judeu envolto a misticismos e histórias de mistério de seu povo da Polônia, Isaac Singer, em uma entrevista que vale a pen...

O feminino como inspiração

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Pensei em um presente para comprar para uma amiga. Alguém com afinidades. Pensei em diários. Vi dois na livraria que particularmente me interessaram: Diário de Sylvia Plath e Frida Kahlo. O primeiro de uma poetisa famosa e o segundo de uma artista plástica. São duas artistas que certamente viveram intensamente. São duas artistas que não tiveram medo de se expressar. Suas idiossincrasias são visivelmente profundas e relatadas com paixão. Gosto de ler sobre mulheres fortes, mas que na realidade eram a fragilidade em pessoa. São ambigüidades irreconciliáveis. São dualidades que confrontam-se. Virginia Woolf por exemplo, uma autora mundialmente conhecida, escritora de muitos livros, feminista convicta, tinha um pai autoritário e machista, viveu defendendo direitos das mulheres, e como essas deveriam construir seu próprio pensamento a respeito do mundo, como elas deveriam valorizar sua obra intelectual e buscar refúgio nela. No final suicidou-se. Clarice disse que o terrível dever é ir até ...

Sob o sol de Toscana

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Entendi. Ela não está mais aqui, quero dizer, aquela que pensava estar. O olhar esclarecido tem um sabor diferente, talvez de uma mistura estranha e sonhadora. Talvez eu me finde mais rapidamente que o imaginado, talvez quem esteja a viver seja um estrondoso e paradoxalmente silencioso ser em espera absolutamente eterna por soluções. Percebi talvez tardiamente que a construção é lenta. È extremamente demorada. Sinto falta do que perdi, embora soubesse desde o início que seria assim. Faz-me falta o que não consegui perpetuar, como se a alegria fosse uma borboleta esvoaçante, solitariamente voando por sobre o céu de luz. Escrever é procurar temáticas variáveis, distintas entre si, é a busca incessante por um aperfeiçoar-se que nunca está completo. Pensa-se ser ainda uma figura folheada a ouro, querendo reluzir um brilho que não é seu, espera-se que o brilho continue reluzente durante a procura por mais ouro, para recobri-la ainda mais com um falso sol. Enfeita-se a jóia com uma máscara e...